[VEIA CRIATIVA] Conto – Entre passos e sapos

 em Criatividade, Veia Criativa

– Estou quase lá!

Passos apressados ecoando no chão de pedra e a melodia constante e ritmada dos sapos eram os únicos sons naquela noite. O garoto andava rapidamente em meio a escuridão, desviando das poças d’água e olhando para trás a cada cinco ou seis passos.

Parou. Tinha chegado a uma bifurcação. – Droga, para que lado? Está quase na hora. – Pensou, inquieto, olhando para os lados como que procurando por algo.

– Se eu demorar demais ele vai me alcançar.

Em um solavanco o menino seguiu rapidamente pelo caminho da direita. Entre um passo e outro ele trocou a bolsa de braço, parecia pesada. Marcas vermelhas brotavam de seus ombros onde a alça antes estava.

As folhas do arbusto atrás de si farfalharam levemente, como se uma brisa calma tivesse acabado de passar. O garoto virou-se. Não tinha sentido brisa nenhuma. – Ele está aqui.

Aqueles olhos vermelhos que ele conhecia tão bem o encaravam por trás das folhas. Tinha que correr. Tinha que correr agora.

Seus passos se apressaram ainda mais, a bolsa batia dolorosamente em suas costas a cada passo – droga, está pesado demais!

Hesitou por um segundo. Pensou se devia ou não deixar a bolsa ali. Tinha lutado tanto para conseguir aquelas coisas, não podia desistir delas agora. Passos se aproximando, não havia tempo para hesitação.

O barulho seco da bolsa caindo ao chão ecoou enquanto o garoto voltava a correr. Estava quase lá. Nenhum monstro iria alcançar ele ali. Nem mesmo aquele velho conhecido.

A ladeira ficava cada vez mais íngreme e o tempo cada vez mais frio e escuro. As árvores ali já estavam secas, o inverno tinha sido duro com elas. Mas estava acabando.

Só mais um pouco. Olhou para trás. Apenas a escuridão encarava de volta. Estava sozinho. Um sorriso triste se desenhou em seus lábios. – Sozinho…

Pela terceira vez o garoto parou. Ele havia chegado.

O abismo era fundo, nada se via além de uma névoa espessa, densa, quase palpável. Silêncio. Até os sapos haviam parado sua cantoria, era como se a própria noite estivesse prendendo o fôlego. Esperando.

O garoto fechou os olhos. Pensou nas coisas que deixou para trás, sorriu ao perceber a ironia de que aquilo que ele conquistou com tanto afinco no fim tinha se tornado um peso, uma dor suportada apenas pelo passado, que apenas o deixava mais lento. A noite quando os monstros vinham ele não podia ser lento.

– Monstros…

De olhos fechados o garoto ouviu os passos se aproximando. Ele não precisou se virar nem olhar para saber quem estava ali. – Você chegou tarde demais velho companheiro. Nenhum peso me segura agora, nenhum monstro me amedronta aqui. Nem mesmo você.

Um rugido ecoou na noite. O garoto sorriu. Por um segundo lembrou de tudo que o levou até ali, e com um passo firme e decidido, andou em direção ao nada. E de repente tudo que havia era escuro, o frio e o fim.

Piscando os olhos freneticamente o garoto tentava se acostumar a repentina mudança de iluminação. O sol brilhava forte sobre a sua cabeça. Sentiu algo embaixo de si. Grama. O chão estava quente e macio.

Aos poucos seus olhos se acostumaram. Ele não estava mais na montanha. Uma linda planície se desenhava em sua frente. Apenas verde até onde seus olhos conseguiam enxergar. Sem paredes ou barreiras. Um lugar que transpirava apenas uma coisa: possibilidades.

Mais uma vez o garoto fechou os olhos. Respirando fundo ele se levantou. Livre do medo, velhos pesos e monstros ele começou a andar. Lentamente enquanto a melodia constante e ritmada dos passaros começava a tocar. Em direção a qualquer lugar.

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